Atlântis

Plano de Atlântis. À esquerda, a cidade em seu conjunto, com suas ligações com o Oceano e com o sistema de irrigação da planície. À direita, a cidade proibida em detalhe, com o Palácio Imperial e o Templo de Posêidon.
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A cidade exterior: canal com colossais estátuas de deuses atlantes (80 a 100 m de altura) |
Os habitantes da Atlântida construíram templos, os palácios dos reis, os portos, as docas secas, e embelezaram assim todo o resto do país na seguinte ordem. Sobre os braços de mar circulares, que rodeiam a velha cidade materna, logo lançaram pontes e abriram uma rota para fora e para as moradas reais. Esse palácio dos reis, o haviam construído desde o início na mesma região habitada pelo deus e os seus ancestrais. Cada soberano recebeu o palácio de seu predecessor e embelezou-o a seu turno, mais do que já havia sido adornado. Procurou sempre exceder o antecessor, tanto quanto pôde, a tal ponto que, quem quer que veja o palácio é tomado de estupor, diante da grandiosidade e beleza da obra.
Fizeram, começando pelo mar, um canal de cem metros de largura, trinta metros de profundidade e dez quilômetros de comprimento, e levaram-no até o braço de mar circular mais exterior. Para as naus vindas de alto-mar, abriram uma entrada, como num porto. Aí abriram uma enseada, suficiente para que os grandes navios pudessem penetrar. Depois, nos obstáculos de terra que separavam os círculos d'água, na altura das pontes, abriram passagens, tais que só um navio pudesse passar de um círculo para outro, e cobriram essas passagens com tetos, tão bem que a navegação aí era subterrânea, pois os parapeitos dos círculos de terra se elevam suficientemente acima do mar.
A maior das barreiras de água, aquela onde penetra o mar, tem largura de seiscentos metros, e a de terra que se lhe seguia tem igual largura. No segundo círculo, a barreira de água tem quatrocentos metros de largura e a barreira de terra tem ainda uma largura igual. Mas a barreira de água que rodeia imediatamente a ilha central tem só duzentos metros. A ilha, na qual se encontrava o palácio dos reis, tem um diâmetro de um quilômetro. A ilha, as barreiras e a ponte (que tem a largura de trinta metros) circundam inteiramente de um muro de pedra circular. Puseram torres e portas sobre as pontes em todos os lugares por onde passava o mar. Tomaram a pedra necessária de sob a periferia da ilha central e de sob as barreiras, no exterior e no interior. Havia da branca, da negra e da vermelha.
Ao mesmo tempo que extraíam a pedra, cavaram dentro da ilha duas bacias para navios, com o próprio rochedo como teto. E, das construções, umas são simples, e em outras, misturam as espécies de pedras e variam as cores, para o prazer dos olhos, e dão-lhes desta maneira uma aparência naturalmente aprazível. O muro que rodeia a barreira mais externa foi revestido, em toda a volta, de cobre, que lhe serviu de reboco. Recobriram de estanho fundido a barreira interior e, quanto àquela que rodeava a própria Acrópole, guarneceram-na de oricalco, que tem reflexos de fogo.
O palácio imperial, no interior da Acrópole tem a seguinte disposição. No meio da Acrópole, eleva-se o templo consagrado, nesse mesmo lugar, a Clito e a Posêidon. O acesso é interditado, e é rodeado de um fecho de ouro. Foi lá que de início Clito e Posêidon conceberam e deram à luz a raça dos dez chefes das dinastias reais. Lá, a cada ano, vêm-se das dez províncias do país oferecer a cada um desses deuses os sacrifícios da estação.
Vista externa e interna do santuário de Posêidon, em Atlântis
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Barreira d’água que separa a ilha anular maior, vista da cidade exterior
A mesma barreira d’água, vista da ilha anular
Vista geral da cidade proibida |
O santuário próprio de Posêidon tem um comprimento de duzentos metros, largura de cem metros e uma altura proporcionada. Revestiram de prata todo o exterior do santuário, exceto as arestas de espigão, e estas arestas eram de ouro. No interior, a cobertura é toda de marfim e inteiramente ornada de ouro, prata e oricalco. Os muros, as colunas, o pavimento, guarneceram-no de oricalco. Aí colocaram estátuas de ouro: o deus de pé sobre seu carro, atrelado com seis cavalos alados, e era tão grande que o cimo de sua cabeça tocava o teto. Em círculo, em torno dele, as cem nereidas sobre seus delfins. Há também no interior grande quantidade de outras estátuas, oferecidas por particulares. Em torno do santuário, no exterior, erguem-se, em ouro, as efígies de todas as mulheres dos dez reis e de todos os descendentes que engendraram, e numerosas outras grandes estátuas votivas de reis e de particulares, originárias da cidade mesma, ou de países estrangeiros sobre os quais tinham soberania. Por suas dimensões e por seu trabalho, o altar responde a esse esplendor, e o palácio imperial é proporcional à grandeza do império e à riqueza dos ornamentos do santuário.
Quanto aos mananciais, o de água fria e o de água quente, ambos de generosa abundância e maravilhosamente adequados para uso, pela amenidade e virtudes de suas águas, eles os utilizam, dispondo em torno deles construções e plantações apropriadas à natureza das águas. Instalam em redor tanques, uns a céu aberto, outros cobertos, destinados aos banhos quentes no inverno: há, separados, os banhos reais e os dos particulares, outros para as mulheres, para os cavalos e para as outras alimárias, cada um com a decoração apropriada. A água daí proveniente, conduzem-na ao bosque sagrado de Posêidon. Este bosque, graças à virtude do solo, compreende árvores de todas as essências, de beleza e altura divinas. Daí, fazem correr a água para as barreiras exteriores por canalizações construídas ao longo das pontes.
Desse lado, foram construídos numerosos templos para muitos deuses e jardins e ginásios para os homens, e picadeiros para os cavalos. Estes foram construídos à parte nas ilhas anulares, formadas pelas barreiras. Dentre outros, para o meio da maior das ilhas, reservam, para as corridas de cavalos, um picadeiro da largura de um estádio e o bastante longo para permitir aos cavalos fazer, na corrida, a volta completa da barreira. Em derredor, por toda a extensão, a distâncias regulares, há casernas para quase todo o efetivo da guarda do imperador. O melhor corpo de tropa estava alojado na menor das barreiras, a mais próxima da Acrópole. E para aqueles que se distinguiam dentre todos por sua fidelidade, foram-lhes afetados alojamentos no interior da Acrópole, perto do palácio imperial. Os arsenais estão plenos de navios de guerra e todos os acessórios necessários para armá-las, e o todo é postado em perfeita ordem.
Quando se atravessam as portas exteriores, em número de três, encontra-se uma trincheira circular, começando pelo mar, e mantendo a distância de dez quilômetros da maior barreira, que formava o maior porto. Esta trincheira fecha-se sobre si mesma na enseada do canal que se abria do lado do mar. É totalmente coberta de numerosas casas, umas ao lado das outras. Quanto ao canal e ao porto principal, regurgitam de naus e mercadores vindos de todos os lugares. Sua multidão causa aí, dia e noite, um contínuo burburinho de vozes, um tumulto incessante e diverso.
A cidade proibida cobre um total de 10 km² (1.000 ha) e divide-se em três partes, nas quais o ingresso é cada vez mais restrito. A parte menos inacessível é a ilha anular exterior, protegida pela muralha revestida de cobre, tem uma área de 690 hectares, um terço da qual ocupada por uma larga pista circular gramada destinada a desfiles, exercícios militares e corridas de cavalos. Em seguida, vem a ilha anular interior, com 230 hectares, protegida pela muralha revestida de estanho. Por fim, a ilha central da Acrópole, cercada pela muralha de oricalco, cobre 80 hectares.
Cem mil pessoas habitam esse complexo, incluindo trinta mil soldados da guarda imperial. São três mil pessoas na Acrópole, incluindo a corte imperial, o harém do imperador, os sacerdotes de Posêidon, os mil homens mais fiéis da elite da guarda imperial e os servidores mais próximos. No anel menor, vivem dezoito mil, incluindo os ministros, os aristocratas mais próximos da coroa e a elite da guarda imperial. Outros setenta mil residem no anel maior, que inclui a maior parte da burocracia do Império e da guarda imperial. A maioria dos cidadãos comuns de Atlântis não põe os pés sequer na ilha anular exterior, a não ser que seja convocado ou que consiga marcar uma audiência com um alto funcionário do Império.
A cidade exterior tem uma área total de 480 km² e é habitada por mais de seis milhões de pessoas. É governada por uma mulher da família imperial escolhida pelo Imperador.
Além do canal principal, há uma densa rede de canais secundários e terciários pelos quais trafegam pequenas embarcações de carga e passageiros, dividindo a cidade em milhares de pequenas ilhas densamente habitadas e ligadas entre si por ruas e pontes.
Os canais secundários tipicamente têm quinze a trinta metros de largura e, assim como o canal principal, são margeados por avenidas suficientemente largas para permitir o desfile de grandes exércitos e o trânsito de elefantes, carroções e carruagens. Esses canais e avenidas delimitam os 50 setores em que se divide a capital, cada um deles administrado por um prefeito eleito pela nobreza local. Dentro dos setores, porém, só é possível deslocar-se a pé, com liteira ou por meio de uma das 250 mil gôndolas (semelhantes às de Veneza) que servem a cidade. A rede de canais terciários é extremamente complexa e mesmo gondoleiros experientes podem perder-se quando saem de seus setores. Podem ter de quatro a dez metros de largura e são normalmente margeados por calçadas. São pouco profundos – em geral, um a três metros – e são atravessados por pontes com altura mínima de dois metros e meio.
Os canais terciários freqüentemente delimitam pequenos distritos semi-autônomos, cada um deles com uns poucos milhares de habitantes, uma câmara de conselheiros e um alcaide eleitos pelo povo que respondem aos prefeitos dos respectivos setores. Cada bairro tem seu próprio templo, sua cultura (muitos têm caráter étnico) e suas rivalidades com os bairros vizinhos.
A cidade é servida por uma intrincada rede de esgotos e galerias que passa por baixo dos canais e deságua no mar, a boa distância da costa. Assim, apesar da enorme população, a água dos canais é razoavelmente limpa. Há peixes e ingeri-la geralmente não é fatal. Os esgotos comunicam-se em alguns pontos com uma rede de catacumbas e passagens subterrâneas, muitas delas secretas ou esquecidas.
O conjunto da cidade exterior é cercado por uma muralha de pedra com oitenta quilômetros de circunferência, cem metros de altura e trinta metros de espessura, guardada por vinte mil soldados. Além das duas entradas do canal principal, a muralha tem 16 portões que dão acesso às estradas que levam para os bosques do Amor e dos Deuses. Há também muitas passagens secretas, estreitos túneis através das muralhas conhecidos apenas dos seus guardiões.
Ao norte da cidade, estende-se uma vasta planície fértil e cortada por milhares de canais e, para além dela, há altas montanhas. Todo a produção excedente dessas regiões flui para Atlântis ou é exportada através de seus portos, gerando um intenso e permanente trânsito de embarcações de todos os tipos e tamanhos através de seus canais.
A leste e oeste, estendem-se reservas florestais de centenas de quilômetros quadrados. A reserva do lado leste, conhecida como os Bosques do Amor, destina-se a luas de mel, ao lazer e a outros entretenimentos de aristocratas e poderosos mercadores, inclusive a caça. É pontilhada por colinas, luxuosas estalagens, casas de banhos termais, palácios de verão e pavilhões de caça. Já a reserva do lado oeste, conhecida como os Bosques dos Deuses tem caráter sagrado e nela encontram-se cemitérios, monastérios, templos e o Vale dos Imperadores, onde se encontram as tumbas dos Atlas desaparecidos e gigantescas pirâmides construídas com as pedras extraídas durante a construção do Grande Canal, que dominam o horizonte da capital. A maior delas tem dois quilômetros de altura e três quilômetros na base.